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Diário dos dias em Lisboa

 

Este blog é assim como uma longa fala. É o diário dos dias em Lisboa. Serve para não me perder de você, mesmo eu continuando aqui. Serve para que você possa estar aqui ou eu aí. Serve para nos compensar da ausência, da distância e do silêncio, e de todas as coisas que por vezes se emudecem e esmorecem. Serve para eu me convencer e te convencer que encontrei, enfim, o remédio para tantos e tamanhos hiatos, para eu acreditar e te fazer acreditar que descobri um jeito simples e macio de nos resgatar aos intervalos. É assim como uma forma que encontrei para ter todos os dias o tempo que tantas vezes me falta para te contar de mim e daqui. Entenda como uma madrugada inteira ao telefone, horas proseando num chat até o sol raiar, uma carta comprida e detalhada entregue na sua caixa de correio, qualquer coisa assim. Qualquer coisa por aí. Qualquer coisa, senão igual, pelo menos semelhante.

Na verdade, não sei o que quero desse blog, a não ser esta vaga impressão de um certo alívio para o tormento constante de só saber de você que você nada sabe de mim. De resto, quero apenas um canal aberto, sinais de fumaça para você ler no ar, um bilhete contemporâneo entregue ao bico de um pombo-correio para te alcançar, uma mensagem dentro da garrafa que você possa receber das mãos do mar.

Só isso. Nada mais. Sem preocupação com gralhas e erros acontecidos no atropelo da escrita, no frenesim de te tagarelar. Sem nem pensar na coerência da forma, na uniformidade dos conteúdos, na identidade estética da coisa ou na coisa estética da identidade. Sem preocupação com créditos, fontes, citações e autorias. Rapinando tudo o que possa para te chegar e assim te mostrar meus dias, te levar meus dias. Ainda que ao desabrigo do corso aparentemente mais infame, do saque pirateado de tudo quanto me pareça urgente com você partilhar.

Talvez este blog seja só uma forma de dar a conhecer a você essa cidade onde nasci e ainda moro. Essa cidade que me corre nas veias, que me apaixona desde que me lembro de mim. Talvez seja só assim pra te contar de todos os becos, ruas e vielas que corro, de todas as histórias e confabulados que sei por ouvir dizer, por ouvir contar. Talvez seja assim para te contar quem sou e de onde vim, que chão é este onde cresci, que traça tem a raça a que pertenço e me fez assim. Ou talvez seja o meu ímpeto de fixar à memória este meu tempo de Lisboa, de começar desde já a salvá-lo de um eventual esquecimento futuro, diante da intensidade crescente deste pressentimento impossível de ignorar de que estão chegando ao fim os meus dias por aqui. Em Lisboa. Cidade-berço, porém, cidade de passagem. Cidade que tão profundamente amo, mas que desde sempre soube que não seria a cidade da minha vida. Por muito tempo que por cá tenha vivido. Por muito tempo que ainda tenha que por cá viver.

Ou talvez dividir com você o percurso que estarei fazendo por aqui até que de novo seja hora de largar desse cais, onde há tanto tempo me vem sendo pedido que dê tempo ao tempo – já que tudo chega (sempre e só) no devido tempo –, que tempo dê e com serenidade e paciência aguarde o tão ansiado momento de partir de vez, sem nunca mais ter que voltar.

Por tudo isto, creio que talvez o conteúdo do que por aqui ficará dito dispensasse o alcance da internet, não fora o facto do blog dela precisar para se concretizar. Assim sendo, e no que a nós diz respeito, tentarei conservar presente a inevitável extensão pública do confabulado, de forma a não cometer nenhuma inconfidência. No que diz respeito a todos os visitantes, que por um qualquer acaso aqui possam vir parar, espero tão somente que possam achar alguma utilidade no que aqui venham a encontrar.

Este blog é , pois, a crónica do que ainda precisa de ir acontecendo, até acontecer de outra vez eu te abraçar.

 

 

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