Feriado: 1º de Dezembro


Representação da Batalha de Alcácer Quibir

Dia 1º de Dezembro: hoje é feriado em Portugal. Celebra-se o Dia da Restauração da Independência (1640), que devolveu o trono à Casa de Bragança, depois de 60 anos de “domínio filipino“. Desde a fundação da nação, nunca Portugal havia sucumbido às investidas incessantes de Espanha. Aconteceu com o desaparecimento de D. Sebastião (1557-1578) na batalha de Alcácer-Quibir. ‘El-rey’ era jovem e gostava de histórias. Ouviu falar nas Cruzadas e nas batalhas, vestiu a armadura mais reluzente, convenceu os conselheiros e arrastou os amigos para dar brado de espadeirada aos mouros do Norte de África. Além-mar, a quimera não correu como nas páginas dos livros. O exército português foi massacrado e, da confusão dos relatos dos poucos que se salvam, só sobrou para a História um facto concordante: era uma manhã de nevoeiro. Talvez por isso tudo o resto seja turvo, a começar por D. Sebastião que nunca pôde ser dado como morto, mas que também nunca chegou a aparecer. E como é turvo – e, como se sabe, não há terreno mais propício ao surgimento de lendas e misticismos, que uma cortina de névoa e brumas – o desaparecimento de ‘El-rey’ em Alcácer-Quibir, inspirou músicos, exaltou poetas e alimenta, até hoje, a alma orfã dos defensores da monarquia, que acreditam que o verdadeiro rei há-de regressar um dia. Esta ideia, D. Sebastião surgido do nevoeiro para resgatar os destinos de Portugal, acabou minando o imaginário colectivo o que é meio caminho andado para se entranhar até à medula de um povo. Entre o pródigo e o redentor, a figura do salvador da pátria e a eterna espera pela sua chegada, ganharam raízes profundas na cultura portuguesa e têm sido teorizadas por vários pensadores como Crença Sebástica ou Mito do Sebastianismo, de Frei Luis de Sousa às trovas de Bandarra, o sapateiro de Trancoso, passando pelo Padre António Vieira, até António Quadros, Teixeira de Pascoaes, António Nobre e António Sérgio. É, aliás, aqui que entronca o apaixonante conceito de ‘O Quinto Império’, expresso em A Mensagem de Fernando Pessoa e no pensamento e vida do professor Agostinho da Silva. Segundo a utopia messiânica e milenarista, equacionada por Vieira no séc.XVII, os quatro primeiros impérios teriam sido, pela ordem: os Assírios, os Medos-Persas, os Gregos e os Romanos. O quinto seria o Império Português.


D. Sebastião, O Desejado

D. Sebastião , o jovem rei que perde sua vida em batalha, à frente do seu exército a parte física desaparece nas areias da África; mas se alguns homens buscam a imortalidade este sem dúvida conseguiu, ainda que não fosse sua intenção, ele sobrevive no imaginário português e não só lá. Com certeza o mito por vezes se torna tragicamente real, seja na morte do próprio rei, seja na imitação ou no suposto renascimento da figura. É a tragédia, o sofrimento e a esperança que alimentam o sebastianismo durante séculos, na angústia de um povo e na crença no porvir. Figura controversa que inspira admiração e ódio ao mesmo tempo, que se apresenta diferentemente para cada pessoa, D. Sebastião vai de messias a cretino, de salvador a demente, inspira paixões e atiça polémicas, como a de Antonio Sérgio e Carlos Malheiro Dias.

Encontra D. Sebastião na conjuntura as condições para se tornar o Desejado, são os cristãos novos portugueses com a sua tradição messiânica, é o seu nascimento que afasta as pretensões espanholas de unificação (mais uma vez!), é a crise que se abate contra o império português, são as trovas de Bandarra, é a tradição medieval do encoberto, é o misticismo e a religiosidade de Portugal, o milenarismo cristão, enfim um terreno prolífero para o mito. Se se pode dizer que existem “condições ideais” para o nascimento de um mito, aí está um : Portugal dos séculos XVI e XVII.

in As Raízes do Sebastianismo

 

Cf. ainda, a este propósito:


D. Sebastião e Felipe II de Espanha

Deixemos agora a teoria do ‘Quinto Império’, que tem pano para mangas e tanto me tem interessado e feito ler que o mais certo era já não voltar ao assunto da Restauração, que motiva o feriado e o presente post. Só mais um parentesis para deixar uma notinha. Nas trovas de Bandarra, o brasileiro de Trancoso que há pouco chamei para a conversa – e que fazem justamente a apologia de D. Sebastião, constituindo talvez a maior exortação feita ao seu regresso, ou senão, pelo menos a mais inflamada – ‘El-rey’ aparece frequentemente referido como “o embuçado“. Ora, um dos fados mais conhecidos e populares, mesmo entre os que nem se dizem grandes apreciadores do género, é precisamente este que dá pelo nome de o Fado do Embuçado, e narra a seguinte história:

Fado do Embuçado
(letra: Gabriel de Oliveira / música: Alcídia Rodrigues)

Noutro tempo a fidalguia,
Que deu brado nas toiradas,
E andava p’la Mouraria, em muito palácio havia
Descantes e guitarradas.
E andava p’la Mouraria, em muito palácio havia
Descantes e guitarradas.

E a história que eu vou contar,
Contou-ma certa velhinha,
Uma vez que eu fui cantar ao salão dum titular,
Lá pró Paço da Rainha.

A esse salão dourado,
De ambiente nobre e sério,
Para ouvir cantar o fado ia sempre um embuçado,
Personagem de mistério…

Mas certa noite houve alguém
Que lhe disse, erguendo a fala:
“Embuçado, nota bem, que hoje não fique ninguém
Embuçado nesta sala!”

E ante a admiração geral,
Descobriu-se o embuçado;
Era El-Rei de Portugal, houve beija-mão real
E depois cantou-se o fado!

Bom, messiânico ou não, ao que importava em 1580, durante mais de dois anos, nem manhã de nevoeiro, nem D. Sebastião. A crise de sucessão criada abriu caminho a Espanha para consumar a tão desejada União Ibérica. Nas Cortes de Tomar de 1581, Filipe II de Espanha é aclamado rei do Reino de Portugal. Durante seis décadas o trono do País ficou privado de rei natural. Começam, a partir de então, as constantes investidas e ameaças intentadas contra os territórios coloniais, que a coroa filipina votava ao descaso e desprotecção, com grandes perdas para os ingleses e, principalmente, para os holandeses em África (São Jorge da Mina, 1637), no Oriente (Ormuz, em 1622 e o Japão, em 1639) e fundamentalmente no Brasil (Salvador, Bahia, em 1624; Pernambuco, Paraíba, rio Grande do Norte, Ceará e Sergipe desde 1630). Os prejuízos comerciais resultantes da derrocada do Império desobrigaram nobres e burgueses do juramento de obediência à dinastia filipina.

A 1 de Dezembro de 1640, um grupo de conspiradores aclamou o duque de Bragança como Rei de Portugal, com o título de D. João IV, dando início à quarta Dinastia – Dinastia de Bragança. O povo, sufocado pela mão pesada dos espanhóis nos impostos cobrados, apoiou o movimento e aliou-se a ele nos 28 anos que duraram as escaramuças da Guerra da Restauração. Porém, emersa na Guerra dos 30 Anos, a Espanha pouco pôde fazer para reprimir aos portugueses o desejo de resgatar a Independência.

Ora, como logo no dia 2 de Dezembro de 1640, D. João IV já cunhava o lacre da correspondência régia com o selo de soberano, Portugal sempre considerou o dia 1 como o momento do ‘grito de Ipiranga’ definitivo e, como tal, o indicado para assinalar a efeméride e decretar o feriado. Até hoje, a data é tão sagrada que ainda perdura uma tal de Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

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Monumento aos Restauradores *

Esta praça leva o nome do monumento erguido em memória do resgate da Independência: Restauradores. Dela sai a Avenida da Liberdade: larga e linda, como a liberdade deve ser, ladeada de árvores frondosas, cujos ramos por esta altura, costumam encher-se de luzinhas de Natal. De cada um dos lados da avenida correm dois passeios ladrilhados com calçada portuguesa, onde a sociedade de portuguesa de outros séculos tinha por hábito passear-se à tardinha. Eça de Queirós é exímio a pintar esse cenário. Aqui ficavam também os hotéis mais luxuosos da capital. Restam o Avenida Palace e o Éden, muito embora este último restaurado ao gosto das modernices, depois de se ter chegado a colocar a hipótese de demolição. Ficam ambos do lado esquerdo. O edifício avermelhado, que se vê na foto) era o antigo cinema Condes, salvo de um destino mais triste graças à cadeia americana Hard Rock (céus, nunca pensei vir a estar grata aos americanos?!) que aí sediou o seu Café de Lisboa. A rua estreita que corta nessa esquina é a que vai dar ao famoso Coliseu. Nos Restauradores, fica o parque subterrâneo onde é praxe deixar o carro, nas noites de concerto, e as cervejarias onde, dependendo da hora, jantamos antes dos espectáculos ou deixamos para vir cear depois. De frente para o monumento na foto, nas nossas costas fica a Estação do Rossio, uma obra de arquitectura belíssima, encerrada para obras devido ao perigo de derrocada do túnel, que segue por largos quilómetros, atravessando a cidade antiga por debaixo do chão, até ultrapassar o casario cerrado dos bairros típicos e ter espaço para de novo voltar à superfície. A trapalhada dessa obra e a derrapagem magistral dos orçamentos são um dos ‘pepinos’ mais polémicos da autarquia. Um desses dias a gente vai passear até lá e coloca as fotos aqui. Fica combinado.

*Foto: Osvaldo Gago

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