“À Espera de Armandinho”

No início do século XX, como nota Ruben de Carvalho no seu livro As Músicas do Fado, a vedetização dos cantadores e cantadeiras de fado veio de certa maneira subalternizar os guitarristas, que passaram de solistas virtuosos a meros acompanhantes. Armandinho inverteu essa tendência, ao adaptar a sua técnica a cada um dos fadistas que acompanhava, entrando como se fosse em diálogo com os cantores, sublinhando ou reforçando as suas características pessoais. Assim, sem se sobrepor aos fadistas, Armandinho devolvia à guitarra um papel proeminente no fado, impondo lentamente, com toda uma nova geração que seguia os seus passos – como Martinho d´Assunção, seu companheiro quase vinte anos mais novo – um novo estilo de acompanhar fado que continua nos nossos dias.

in Portal do Fado

O Pedro anda, há muito tempo, a esgravatar com minúcias de cirurgião o espólio de Armandinho, de que só muito parcialmente restou registo audível. Sabem-se que são muitas e muitas as composições, que foram atravessando os tempos na voz e nos dedos de outros, mas existem poucas gravações em que se possa experimentar o que seja escutá-las interpretadas pelo próprio: Armandinho, o “Mago da Guitarra”, como um jornal que já não existe lhe chamou, na edição em que dava conta da sua morte. É por isso que é tão essencial e precioso o trabalho de resgate do Jóia. Por isso e porque o resultado final é exemplo de sublime virtuosismo de uma transposição notável da guitarra portuguesa para a guitarra clássica. E é também por isso que, na próxima 4ª feira, há-de ser uma noite mágica no Teatro da Trindade.

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