
Passa o MTV Unplugged da Alicia Keys na RTP2. O som está baixinho e a voz e a música ouvem-se só o suficiente. Nada mais que isso. Gosto cada vez mais de harmonias e equilíbrios, dou comigo a pensar. É Novembro, mas as temperaturas amenas continuam a consentir janelas abertas, o que é sempre uma benção a renovar oxigénios. O fumo quase não se sente, o que é melhor ainda, porque faz a culpa menor do que devia, porventura, ser. Cheira a baunilha e jasmim e a madeira encerada e ao sabonete de mel e menta do banho. Há café acabado de fazer, para o serão. Mais um cheiro a destilar-se no ar! Considero os cheiros familiares da minha casa como uma espécie de aromaterapia que, diariamente, produz sobre mim os efeitos do mais eficaz dos curandeiros e me restabelece do desnorte em que o quotidiano nos consome a todos, fora de portas. Deito um olhar em redor. Sempre que olho em redor e o redor é este espaço circunscrito que reconheço e chamo de “casa”, solto um suspiro. Precisava de tempo, de muito mais tempo, para todos os livros, CDs e DVDs aqui de casa. É cada vez mais desesperante ter que passar tanto tempo na rua, com tudo o que tenho à espera para ler e ouvir! Angustia-me a ideia de que o tempo que tenho possa não me chegar e que, no fim, sobrem páginas que nunca cheguei a folhear, canções que tenham que ficar por ouvir.
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