O meu relicário.

Semana de loucos! Sai caro interromper o frenesim do quotidiano. Sempre que tiro uns dias de férias sei que a semana anterior e a que se seguirá à volta hão-de ser alucinadas. Ás vezes pergunto-me se vale a pena porque todo o repouso que se consegue se destrói nos primeiros minutos. Mas acho sempre que vale a pena. Mais do que isso: mesmo sabendo que assim é, a urgência dessa pausa é tão premente que me parece sempre um preçlo que vale a pena pagar.

Nem acredito que sobrevivi até 6ªfeira! O prior é que a proxima semana também não augura um ritmo menos doido. É muita coisa irrecusável a acontecer. Podia fechar os olhos e recusar,mas não me perdoaria se perdesse a oportunidade desses encontros e momentos que aí vêm. Porém, para serem possíveis, exigem que redobre o esforço e multiplique as horas de trabalho para além do razoável, de forma a libertar tempo.  Dizem muitas vezes que devia abdicar de ir a todos os lados, que não tenho que estar presente para além das forças. Não consigo explicar-lhes que ir e estar presente é justamente a maior fonte das minhas forças, a única compensação, o melhor de tudo, a única razão que faz toda esta insanidade valer a pena e ganhar, senão algum sentido, pelo menos valor.

Não percebem e é difícil explicar. Que a arte e o belo e a inteligência e a criatividade são relíquias que não se podem desprezar. Tenho que estar e ver e fruir e sentir e experimentar e conversar e falar. A cada vez, há um mundo que se dilata em mim e me abre por dentro. Qualquer coisa que faz muitos rir, mas que eu sinto claramente que me fazem maior e melhor. Assistir a um concerto, ver um bailado, conversar sobre livros e com um escritor, ver um espectáculo tomar forma, andar-lhe pelos intestinos e bastidores, uma peça a erguer-se, um programa de tv ou um vídeo a comporem-se, uma coreografia a ensaiar-se, um cenário a ganhar corpo, sentir as emoções que ficam depois que o pano baixa… Tudo, tudo isso. É tudo tão mais! Tão mais!!

Como é que eu lhes vou explicar que há gente que se torna amiga próxima, gente que fala de outras coisas, pensa outras coisas, tem fome e sede de outros modos, outros quês e porquês, tão à frente, tão adiante, tão a milhas das comezinhas vaidades e disputas e ambições e presunções e preocupações com que os vejo ocupar-se nos seus eternos novelos e baraços…?!

 

Portanto, tento só pensar que é 6ªfeira e nada mais. Para nem me ocorrer o esforço que há-de ser o preço que me está reservado, para pagar pelos momentos irrecusáveis da semana que aí vem.

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