
Terminou, este fim-de-semana o doclisboa2007. Foram onze dias com os melhores documentários produzidos em Portugal e no Mundo, a desfilar pela capital a um ritmo intenso. Tentei manobras e contorcionismos mil para assistir. Mesmo assim perdi muitos trabalhos que gostaria de ter visto porque o horário laboral não se compadece com o nosso ímpeto cinéfilo e cultural. Havia de ter graça, entrar no gabinete da administração e dizer: “Amanhã vou sair às 14h porque quero assistir a um documentário que passa às 14h30“!… Seguramente me responderiam: “pois aproveite e nem se preocupe em sair da cadeira porque seu lugar aqui já era!“.
Nesses dias reencontrei muita gente do audiovisual, velhos amigos e conhecidos, gente de cujo convívio a guinada na vida, subitamente me afastou nos últimos anos. Como sempre me sucede quando, de alguma forma, volto ao contacto com esse mundo das imagens, que por tanto tempo foi o mundo da minha linguagem, o meu universo de expressar os derivados e decorrências do contacto com a realidade e as coisas vivas, experimento sentimentos e emoções várias. Experimento até uma súbita nostalgia, ás vezes uma saudade danada, uma vontade de ter tudo aquilo outra vez, a preencher-me os dias e as horas, a cabeça, as ideias, a criação… e é tanto e tão forte que nos primeiros instantes quase me parece fatal desígnio de lhe regressar. Mas mantenho o foco. Sempre mantenho o foco, ainda que precise de reconhecer que “foco” continua a resumir-se à mera recusa e rejeição, mais que a significar a existência de um novo projecto ou um outro caminho mais palpável, no presente. Mantenho-me pois firmemente afastada de um universo que profundamente me apaixona em nome de um outro que não existe ou que, a existir, abomino e não me satisfaz. Confuso? Contraditório? Absurdo? Seguramente. Todavia é essa a realidade. É essa a condição presente.
Seja como for, o facto é que as incursões que me foram possíveis ao doclisboa permitiram que voltasse a ver gente que gosto, conversar com pessoas que admiro e isso foi para mim de um inestimável prazer. É um alívio voltar a estar cercada de pessoas que pensam e fazem coisas, que se interessam pelo mundo o suficiente para produzir frases que vão muito além do mero papaguear do que se ouviu dizer a um comentador de tv, do que se recortou de uma notícia de jornal ou de uma coluna de opinião. Encontro sempre um precioso aditivo de oxigénio entre os que gozam de uma atitude crítica e autonoma face ao mundo que nos rodeia. Ando tão saturada de viver mergulhada na fogueira dos vaidosos, tão sem paciência para a medíocridade dos que têm sempre opinião sobre tudo e posição sobre nada, tão entediada com as verborreias eloquentes dos que são capazes de discutir interminavelmente sem sequer conseguirem dar conta das suas boas razões para crer e dos argumentos que esgrimem sem chegar a desembainhar a espada!… Pode ser um desabafo meio elitista, sim, mas não consigo evitar este arrastado suspiro de alívio. Foi tão bom outra vez estar entre inteligentes e interessantes, durante os dias que durou o doclisboa e todo aquele pessoal foi convocado ao reencontro.
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