

Sala de Caça e Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra
Em 1711, decreta El-Rei D. João V que por justus motivos se erga na Vila de Mafra um convento a Nossa Senhora e St. António, a ser entregue à Ordem dos Frades Arrábidos. Escolhe D. João V o local (Alto da Vela), compram-se os terrenos e iniciam-se as obras. Desde o lançamento da primeira pedra, em 1717, à cerimónia de Sagração da Basílica, em 1730, a edificação, sob a direcção do arquitecto Johann Friedrich Ludwig, sofreria inúmeras alterações, e de um convento para 13 frades passar-se-ia a um palácio-mosteiro para 300. Com o dinheiro do Brasil que começou a entrar nos cofres, o projecto foi-se tornando cada vez mais ambicioso e el-rei não se poupou a despesas, tomando por menina dosseus olhos a construção, no interior, de umas das mais belas bibliotecas da Europa, decorada com mármores preciosos, madeiras exóticas e incontáveis obras de arte. À excepção da pedra lioz de Pero Pinheiro e Sintra, quase tudo foi importado. Itália, Brasil, Holanda, França e Antuérpia enviavam as encomendas de mármores, madeiras, esculturas, paramentos, baixelas, utensílios de culto, sinos e carrilhões, tudo pago com o ouro do Brasil, rapidamente transformado nas pedras de Mafra. Durante os 13 anos que duraram as obras, operários, mestres, médicos, frades, boticários e animais vieram de todo o País, alojando-se na “Ilha de Madeira” (*). Ao todo eram quase 52 mil pares de braços em acção. Em 1730, a Real Obra de Mafra empregava tanta gente que se tornava difícil em qualquer outro lugar do Reino encontrar um carpinteiro ou um balde de cal.
A 22 de Outubro de 1730, embora as obras ainda estivessem atrasadas, decidiu El-Rei que se celebrasse a cerimónia de Sagração da Basílica, presidida pelo Cardeal Patriarca D. Tomás de Almeida, participando toda a Família Real, Corte e representantes de todas as Ordens. Calcula-se que tenham assistido mais de 20 mil pessoas, sem contar com os quarenta e cinco mil operários, numa festa que durou oito dias e onde se ouviu pela primeira vez o som dos Carrilhões. O palácio só era popular para os membros da família real, que gostavam de caçar na tapada. Desse hábito fortemente cultivado, guarda registo a imponente Sala de Caça que se mantém aberta ao visitante.
A hipótese de se ter tratado de um voto para obter sucessão régia – D. Maria Ana de Áustria casara-se há três anos com o Rei e não conseguira engravidar – perdurou e ainda hoje é uma explicação por muitos avançada. Fala-se de um encontro entre o Rei e um frade, em que o primeiro se terá queixado de não conseguir descendência, ao que o frade teria respondido: “El Rei terá tantos filhos quantos desejar“. Perante a perplexidade de D. João V, o frade desfez o enigma: bastava ao Rei erguer um convento em honra de Santo António. Contudo, há quem diga que a rainha engravidou antes do início da construção, pelo que as teorias se dividem. Há quem defenda que o nascimento da princesa D. Maria Bárbara teria vindo determinar o cumprimento da promessa. Há quem sugira que o verdadeiro motivo teria sido uma promessa com vista à cura d a doença que já principiara a enfermar o rei.
Em 1834, no âmbito da “Reforma Geral Eclesiástica” empreendida pelo ministro e secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo Decreto de 28 de Maio, promulgado a 30 desse mês, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respectivos bispos, até à morte da última freira, data do encerramento definitivo. O mosteiro fica, pois, abandonado após a dissolução das ordens religiosas. Durante os últimos reinados da Dinastia de Bragança, o Palácio é utilizado como residência de caça e dele sai também em 5 de Outubro de 1910, o último rei – D. Manuel II – para a praia da Ericeira, onde o seu iate real o conduziu para o exílio.
O Palácio Nacional de Mafra foi classificado como Monumento Nacional em 1910. Actualmente, o único residente do Palácio é um antigo tipógrafo, de nome Gil Mangens. Descendente de uma família de origem francesa, que chegou a Lisboa no século XVIII, por alturas da construção do Palácio, na pessoa de um gravador de nome Mangens, e que devotou, à imagem do pai e do avô, toda a sua vida ao monumento que o acolhe. Hoje em dia, além da preservação da Tapada onde a família real gostava de caçar (e que alberga veados, javalis e outras espécies protegidas) o espaço abriga também um projecto para a preservação dos lobos ibéricos. As melhores mobílias e obras de arte foram levadas para o Brasil, para onde partiu a família real quando das invasões francesas, em 1807. Desconhece-se, no entanto, o destino da maior parte desse património, visto que não constam em qualquer acervo museológico brasileiro. No palácio pode ainda visitar-se a farmácia, com belos potes para medicamentos e alguns instrumentos cirúrgicos da época. Ao centro da imponente fachada, ficam as torres da basílica, cujo interior da cúpula é forrado a mármore e equipado com seis orgãos do princípio do século XIX, com um repertório exclusivo que não pode ser tocado em mais nenhum local do mundo. O átrio da basílica é decorado por esculturas da Escola de Mafra, criada por D. José I em 1754, tendo sido muitos os artistas portugueses e estrangeiros que aí estudaram sob a orientação do escultor italiano Alessandro Giusti. O Palácio possui ainda dois carrilhões, mandados fabricar em Antuérpia por D. João V, com um total de 92 sinos que pesam mais de 200 mil quilos e são considerados dos maiores e melhores do mundo. Contudo o maior tesouro de Mafra é a biblioteca, com chão em mármore, estantes rococó e uma colecção de mais de 40 000 livros com encadernações em couro gravadas a ouro, incluindo uma segunda edição de Os Lusíadas de Luís de Camões.
(*) Durante os anos que duraram os trabalhos de construção do Monumento, ergueu-se em Mafra uma verdadeira “povoação” que ficou conhecida por “Ilha de Madeira”. Para além de albergar as várias oficinas de vidreiros, ferreiros, latoeiros, carpinteiros e pintores – tantos eram os fornos de cal que se estendiam até Cascais – e inúmeras casas de pasto, incluía ainda as barracas de campanha para os soldados, uma ermida de madeira, oito enfermarias, boticas e cozinhas, que mal deveriam chegar para os 45.000 operários, 7.000 guardas e 1270 bois que ali estiveram enquanto se construía o Monumento.
texto adaptado, a partir de:
GOMES, Joaquim da Conceição – Descrição minuciosa do monumento de Mafra, ideia geral da sua origem e construção e dos objectos mais importantes que o constituem. Segunda edição, correcta e aumentada com muitas notas e com uma notícia de Sintra, seus edifícios e arredores. Imprensa Nacional: 1871.
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