Ás margens do protocolo.

O Palácio Nacional de Mafra, é um dos mais imponentes monumentos de Portugal, símbolo do reinado absolutista de D. João V e dos apogeus do Império, quando os carregamentos de ouro vindos das colónias abundavam abusivos, e domina o olhar sobre a Vila de Mafra pela projecção que alcança na paisagem. O meu pai foi militar no quartel que aqui se instalava na década de 60, quando o rude golpe da história veio ameaçar o Império português e as colónias de África, as últimas sob jugo, clamavam o derradeiro grito do Ipiranga. De convento a palácio, o monumento transformou-se em quartel, mediante a imperiosa necessidade de preparar oficiais e recrutas que travassem as guerras que lavravam nas colónias. Quando cruzava as histórias da história que meu avô era mestre em me legar, com as histórias da vida de que meu pai sempre foi exímio narrador, não podia deixar de notar o que sempre me pareceu preversa e requintada ironia: o bastião que, séculos antes, as colónias ajudaram a erguer servindo para preparar o exército que sairia agora, séculos mais tarde, para as combater!…

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Tanto o Palácio como a exuberante Tapada que lhe é adjacente constituem lugares que ficaram para sempre na minha memória a pontuar-me a infância. Até aos cinco anos vivi quase em permanência na casa de fim-de-semana da Ericeira. A casa de família em Lisboa era, pelo contrário, lugar de pouca premanência, quando se tornava estratégica para algum compromisso dos pais que também me envolvia, ou então em vésperas de nova consulta de alergologista, quando era preciso comprar sapatos novos, cortar o cabelo ou ir ao dentista. Fora isso, eu era uma menina da cidade alegre e privilegiadamente provinciana. Não brincava em marquises, nem dividia o ócio dos quatro anos pelos desenhos animados da televisão e os baloiços do jardim, entre a hora do lanche e a do jantar. Apanhava canas e amoras, nos passeios a seguir à sesta, ficava a ver as fragas Atlânticas explodir as fúrias de espuma contra as falésias agrestes da Ericeira, que a minha mãe gostava de ir pintar, acompanhava o avô à capitania, descia com ele à praia onde os pescadores reparavam redes e traineiras, e depois sentavamo-nos no paredão, apertados em camisolas de gola alta e lã em pleno mês de Setembro, sob a humidade implacável do micro-clima da região. Foi ali que me contou tantas e tantas coisas, bocados de Portugal que vinham a pretexto dos poetas e navegadores que o lugar lhe evocava. Falo disto, agora, porque ontem estive em Mafra e as lembranças do passado me fizeram, subitamente, a infância aqui, como se não houvesse tempo. Passei à porta da mercearia onde comprava aqueles rebuçados grosseiros ao peso, que o dono embrulhava num cartucho mal amanhado de papel manteiga. Passei no largo onde havia feira de quinze em quinze dias, e o avô gostava de ir sem precisar de comprar nada. Lembrei-me das gaiolas coloridas para grilos (onde nunca tive coragem de enfiar nenhum), dos moinhos de papel, dos regadores de plástico, das cestas de verga, das miniaturas de fogareiros e assadores de barro, de todos esses tesouros que me comprava no regresso, com aquele olhar benevolente de quem sabe que nenhuma daquelas coisas me serviria, em verdade, para coisa nenhuma a não ser para me sentir feliz. Lembrei-me das idas com a avó e as empregadas ao mercado, do cheiro das peras e das ameixas, das raízes frescas das batatas arrancadas à terra, dos passeios de charrete aos domingos, pela Tapada, do eco dos passos nas galerias do mosteiro, nas mil e uma incursões que por lá fazíamos em busca da alma penada de alguma raínha esquecida… Lembrei-me e lembrei-me e lembrei-me. Lembrei-me até da face levemente molhada com que a fronha das almofadas invariavelmente me esperava, noite após noite, na hora de dormir. Por causa do clima. E por causa do clima, também: o bafio indelével que se colava aos cantos dos armários, à esquina das salas e à superfície de todas as coisas que ocupassem espaço; o cheiro de margaridas e malmequeres nos canteiros que rodeavam a casa; o aroma fofo da terra adubada, depois da chuva; o sabor do leite naquela caneca em forma de cabeça de gato; o rasto ciclico da rajada do farol, a varrer a noite e que atravessava a vista do céu, em todas as janelas da casa. Lembrei-me. Confesso que, durante todas as cerimónias da Cimeira entre a Europa e a Rússia, a decorrer no Palácio Nacional de Mafra no âmbito da presidência europeia portuguesa, e que trouxeram Vladimir Putin a Portugal, me mantive sempre impotentemente distraída pelas memórias. Esta manhã, o presidente russo passou a poucos metros de mim, sempre cercado por um grosso cordão de segurança. Impressionou-me aquele olhar impossível de transpôr e que me causou a sensação de ser impossível adivinhar o que quer que seja que possa estar pensando. Por instantes, invejo-o. Queria ser como ele. Queria ter a certeza absoluta de que ninguém, absolutamente ninguém que desde ontem olhe para mim, possa sequer fazer a mais pálida ideia daquilo em que estou a pensar. Mais que não seja para não parecer tão mal eu estar tão ausente daqui!…

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